Refugiadas da Venezuela falam sobre a saída do país e a vida em Salvador
Amigas de 19 e 28 anos que se conheceram na Bahia em um curso de capacitação de emprego e disseram que não pretendiam vir para o Brasil por dificuldade com idioma.

O sotaque espanhol é forte, mas dez meses na Bahia já ajudaram a jovem venezuelana de 19 anos, Diosmary Barrios, a se familiarizar com o português. Ela ainda não é fluente, mas entende bem o idioma do Brasil e diz estar em busca de aprender, cada vez mais, a língua do povo que abriu os braços para recebê-la junto com a família.

Além de aprender português, a refugiada da Venezuela que mora com os pais e o irmão, de 21 anos, no bairro do Uruguai, em Salvador, tem esperança em refazer os sonhos e planos deixados no país de origem, que sofre com crise política e social.

“Tem muita gente necessitada lá, a comida não dava para toda a semana, no máximo um dia, porque a gente não conseguia comida. Quando tinha era muito cara. Remédio não tem. Coisas como essas foram que fizeram a gente pensar em sair de lá”, conta Diosmary.

Diosmary junto com os pais e o irmão em Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Diosmary junto com os pais e o irmão em Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

A jovem, que terminou o ensino médio na Venezuela, está no Brasil em busca de emprego. A situação dos pais, que chegaram a ter um restaurante por cerca de sete anos na Venezuela, é parecida.

“A gente não encontrava comida [para preparar e fazer]. Para gente era importante que as pessoas [clientes] estivessem satisfeitas, mas não tinha como e precisamos fechar. Agora, aqui no Brasil, eu quero encontrar um trabalho que possa cobrir essas necessidades. Quero trabalhar, ajudar minha família”, destacou a jovem.

Crise política

Estefania e Diosmary são refugiadas da venezuela que estão morando em Salvador, na Bahia — Foto: Egi Santana/G1 BA

Estefania e Diosmary são refugiadas da venezuela que estão morando em Salvador, na Bahia — Foto: Egi Santana/G1 BA

Assim como Diosmary, a venezuelana Estefania Samaria, de 28 anos, está no Bahia. Ela vive com a mãe em Salvador, no bairro do Lobato, há três meses. A jovem deixou na Venezuela irmãos, sobrinhos e a carreira de administração em recursos humanos.

“Em meu país, a participação das pessoas na política mudou bastante. Antes, na rua, não escutava as pessoas falarem de política, mas hoje falam muito”, destaca a jovem.

“Por causa da política, muitas coisas estão mudando, inclusive a opinião sobre esse tema. Tem que tomar muito cuidado se falar lá. Não falamos, mas somos conscientes das coisas que acontecem”, contou Diosmary.

Na capital baiana, ela espera encontrar o acolhimento e condições de sobrevivência que não conseguiu na Venezuela.

“A gente não saiu para passear, para conhecer outro país. A gente saiu como refugiadas”, destacou Estefania.

Estefania está no Brasil desde este ano e mora em Salvador — Foto: Egi Santana/G1 BA

Estefania está no Brasil desde este ano e mora em Salvador — Foto: Egi Santana/G1 BA

Diosmary e Estefania se conheceram no Brasil durante um curso de capacitação promovido em parceria entre institutos sociais.

No curso, que faz parte do projeto “Empoderando refugiadas”, ambas trilham o caminho para alcançar uma oportunidade de emprego em Salvador. Elas têm aulas de português, além de capacitação para o trabalho de atendimento e vendas.

De acordo com dados da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), mais de 50 venezuelanos na Bahia.

São 20 adultos e 7 crianças em Salvador, atendidos pelo Instituto Aliança, 15 adultos em Alagoinhas e nove venezuelanos em Itabuna, que foram resgatados em situação semelhante ao de trabalho escravo, em uma oficina de manutenção de equipamentos de parques de diversões.

Chegada ao Brasil

Estefânia no aeroporto de Salvador quando chegou à capital baiana — Foto: Arquivo Pessoal

Estefânia no aeroporto de Salvador quando chegou à capital baiana — Foto: Arquivo Pessoal

Além de histórias semelhantes de refugiadas, as duas compartilham da mesma religião, são Testemunhas de Jeová. Conforme as jovens, foram os membros da igreja que juntaram dinheiro para que elas conseguissem chegar ao Brasil.

“A gente queria ir para um país que o espanhol fosse o idioma, mas acabamos vindo para o Brasil. Eu sou Testemunha de Jeová e os irmãos [como são chamados os integrantes da igreja] fizeram uma rede de ajuda e quem queria sair de lá, da Venezuela, falava com os irmãos daqui para poder vir [para o Brasil]. Então a gente solicitou a vinda, graças a Jeová, aceitaram nossa solicitação e os irmãos mandaram nossa passagem”, explicou Diosmary.

Estefânia e Diosmary durante visita ao Pelourinho, ponto histórico de Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Estefânia e Diosmary durante visita ao Pelourinho, ponto histórico de Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Estefania também reforçou a opinião da amiga. “O Brasil não foi a primeira opção por causa do idioma. O Brasil é o único país da América Latina que não fala espanhol, mas aqui a organização [Testemunhas de Jeová] deu esse apoio para nós. Estou tendo oportunidades aqui que nenhum outro país deu para mim”, revelou.

Para as duas venezuelanas, a comida e o comportamento do baiano chamaram a atenção delas. As refugiadas relataram, ainda, que se surpreenderam com o povo soteropolitano, já que achavam que teriam muita dificuldade para se comunicar por aqui, por conta do idioma.

“Eu não queria vir para cá, mas quando cheguei aqui, vi a cultura, a comida, superou tudo o que eu pensava. Eu amei o Brasil, a Bahia. Foi emocionante quando chegamos no aeroporto. Era 2h e tinha mais de 80 pessoas esperando pela gente [ela e a família]. Fiquei impressionada com isso, o amor que se mostrou. A união foi impressionante”, detalhou a jovem de 19 anos.

Já Estefania relembrou um momento de apoio que recebeu de uma baiana. “Como eu sou Testemunha de Jeová, vou pregar de casa em casa. Em uma das casas, quando eu terminei de falar, a dona da casa perguntou se eu era argentina. Daí eu disse: venezuelana. Imediatamente a moça me deu um abraço e disse que estava comigo. Ela falou que sentia muita tristeza pela situação do meu país. Isso foi muito legal, me lembro sempre de muito carinho disso”.

Diosmary durante visitação ao Farol da Barra, outro importante ponto turístico de Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Diosmary durante visitação ao Farol da Barra, outro importante ponto turístico de Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Capacitação

O projeto “Emporando refugiadas”, desenvolvido através de uma parceria dos Institutos Lojas Renner e Aliança, tem o objetivo de promover a qualificação profissional de refugiadas e imigrantes no setor têxtil e, desta forma, contribuir para a entrada delas no mercado de trabalho brasileiro.

O programa começou em 2016, quando o Instituto Lojas Renner foi convidado a participar do projeto pela ONU Mulheres e pelo Pacto Global, em parceria com o Programa de Apoio para a Recolocação de Refugiados (PARR). A turma de Estefania e Diosmary é a primeira de Salvador.

“Desde o início do programa, 280 mulheres foram beneficiadas com as capacitações em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ficamos felizes em ver que, além de ter continuidade, o projeto está crescendo, formando agora sua primeira turma em Salvador. Essa expansão geográfica permite um impacto ainda maior no processo de inserção e adaptação das refugiadas na sociedade brasileira”, disse Eduardo Ferlauto, gerente de sustentabilidade da Lojas Renner

“Emporando refugiadas” já recebeu alunas que estão no Brasil oriundas de países como Venezuela, Colômbia, Haiti, Nigéria, Angola, Cabo Verde, República Democrática do Congo, Gabão, Senegal e Guiné-Bissau.

Diosmary e Estefania no curso de capacitação promovido através do projeto Empoderando Refugiadas — Foto: Divulgação/Instituto Aliança

Diosmary e Estefania no curso de capacitação promovido através do projeto Empoderando Refugiadas — Foto: Divulgação/Instituto Aliança

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